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MEMÓRIA & LAZER TURÍSTICO PAULISTANO

  • Foto do escritor: Revista de Turismo PB
    Revista de Turismo PB
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

PARQUE AUGUSTA “BRUNO COVAS”: SÍTIO HISTÓRICO DE LAZER & TURISMO DOS PAULISTANOS


INFRAESTRUTURA - O Parque Augusta tem aproximadamente 23.000 m² com vegetação significativa e valores históricos. Espaços como caminhos e passeios, playground inclusivo, cachorródromo, equipamentos de ginástica, sede administrativa, sanitários públicos, arquibancada, deck elevado para apresentações e eventos, trilha, redário e área para prática de slackline (a base do esporte está em se equilibrar em uma fita de nylon estreita e muito flexível, que deve ter suas extremidades fixadas em árvores, postes e rochas. É uma ótima atividade para treinar equilíbrio, postura e concentração.) A trilha do parque tem uma extensão de 731m. Possui áreas de manejo e compostagem, além de uma estrutura de serviços e apoio para a administração.

O projeto foi pensado de acordo com os parâmetros definidos no Plano Diretor, que determina uma Taxa de Permeabilidade mínima de 90%, ou seja, somente 10% da área do parque pode ser impermeabilizada.

O Parque Augusta – Prefeito Bruno Covas, inaugurado no final de 2021 após décadas de uma ferrenha disputa popular e jurídica, é muito mais do que um respiro verde no coração do Baixo Augusta. Ele funciona como uma verdadeira cápsula do tempo urbana. Durante as obras de sua implementação, o solo e as estruturas antigas revelaram segredos que reescrevem trechos da história paulistana.

Destrinchamos as camadas de mistérios, vestígios arqueológicos e memórias preservadas que fazem desse parque um sítio histórico a céu aberto.

1. O Enigma do Subsolo: A Busca pelas Raízes Indígenas e Coloniais

Quando as escavações para a infraestrutura do parque começaram, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determinou a paralisação imediata de qualquer movimentação de terra. A suspeita era de que a área abrigasse vestígios de populações indígenas pré-coloniais e rotas remanescentes do histórico Caminho do Peabiru — a antiga rede de trilhas que conectava o Atlântico ao Império Inca.

A topografia do terreno, cercada outrora por córregos e rios hoje canalizados, era o cenário ideal para assentamentos nativos primitivos. Embora as escavações profundas não tenham isolado um grande Sítio Indígena intocado, elas confirmaram que a região foi um ponto de transição física crucial para os povos originários muito antes da chegada dos jesuítas.



O Tesouro Arqueológico dos Séculos XIX e XX

O Centro de Arqueologia de São Paulo (CASP) transformou o canteiro de obras em um laboratório. Cavando poços de prospecção a cada 10 metros, os arqueólogos recuperaram mais de duas mil peças e fragmentos históricos. O subsolo revelou:

Louças e Faianças Finas: Pedaços de porcelana importada europeia dos séculos XIX e XX, indicando o alto padrão de vida das famílias que ocupavam a chácara original.

Caminhos e Estruturas Hidráulicas Ocultas: Velhas tubulações de cerâmica e trilhas pavimentadas centenárias que mostram como a água era manejada no topo do espigão da Consolação.

Os Fantasmas da Educação Elite: O Colégio Des Oiseaux

Antes de se tornar mata densa e abandonada, o terreno abrigou o Palacete Uchoa e, posteriormente, o aristocrático Colégio Des Oiseaux (1907-1969), uma escola interna de freiras voltada para as filhas da elite cafeeira.

Posteriormente, por um pequeno período, foi transformado no Cursinho Colégio Equipe, em cujo Auditório Serginho Grosmann (Apresentador do programa televisivo da Rede Globo “ALTAS HORAS”), organizou vários shows com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal,

Gonzaguinha, Grupo de Teatro Experimental da PUC, Bethânia, até eu me apresentei naquele Auditório com o Grupo Oficina na criação coletiva “Gracias Señor” e, tantos outros renomados artistas.

Já a demolição do colégio nos anos 1970 foi um dos maiores crimes arquitetônicos da cidade. Contudo, a destruição não foi total:

A Base Oculta: As obras do parque expuseram as bases originais das paredes e o antigo porão do Des Oiseaux. Em vez de cobri-las com concreto, os arquitetos optaram pelo restauro arqueológico, deixando as ruínas integradas ao paisagismo.

O Portal e a Casa do Bosque: Únicos sobreviventes em pé daquela era, o imponente portal da Rua Augusta e a Casa do Bosque (antiga casa do jardineiro/zelador) foram integralmente restaurados e tombados pelo Conpresp, funcionando hoje como símbolos de resistência da memória da cidade.


O Jardim Francês “Escondido”

Um dos maiores segredos desvendados no processo de restauro paisagístico foi a constatação de que o traçado do jardim central do parque seguia os moldes de um jardim francês clássico, com simetria rígida e caminhos radiais.

Pesquisas históricas indicaram que a concepção original daquele traçado paisagístico é mais antiga que a do próprio Parque Trianon, na Avenida Paulista. Esse desenho geométrico foi limpo, recuperado e hoje contrasta harmonicamente com o bosque denso de Mata Atlântica que cresceu ao redor.


A Arqueologia Urbana do Protesto: Os Grafites Salvos

Os mistérios preservados não se limitam ao passado distante. A história recente da própria comunidade, que acampou e lutou por mais de 40 anos contra o mercado imobiliário para que o espaço não virasse um complexo de prédios, também foi eternizada.

A pedido dos movimentos sociais ativistas, os grafites e pichações anônimos feitos na face interna do grande muro perimetral e na parede externa da histórica Casa das Araras não foram apagados. Eles foram tratados e mantidos como patrimônio imaterial da crônica urbana de São Paulo, registrando a voz da população que garantiu a existência daquela floresta no centro da metrópole.

Nota de Preservação: Caminhar pelas passarelas elevadas do Parque Augusta é fazer uma leitura estratigráfica da capital: no topo, a vegetação e o lazer contemporâneo; ao nível dos olhos, a arquitetura eduardiana e os registros das manifestações populares; sob os pés, os alicerces de uma São Paulo que teima em não sumir.






Ivan Leyraud

É Jornalista, colaborador da Revista de Turismo da Paraíba, Presidente da Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo do Estado de São Paulo e Diretor Financeiro da FEBTUR Nacional

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