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Entrevisa com Chico Viana

  • Foto do escritor: Revista de Turismo PB
    Revista de Turismo PB
  • há 20 horas
  • 6 min de leitura

1. Quem é o professor Chico Viana e qual é sua contribuição para a educação e a literatura?

R.: Sou o rebento de uma família de professores; não conseguindo escapar à genética, ou à tradição, terminei optando pela sala de aula. Tentei de início fazer Medicina e me mantive no curso por quase quatro anos. Durante esse período não deixei de atuar em cursinhos pré-vestibulares como professor de Português e Literatura Brasileira. Com o tempo foi-se ressaltando o descompasso, e acabei, por falta de vocação para o exercício médico, transferindo-me para Letras. Depois vieram o concurso para a UFPB e as pós-graduações na UFRJ (sobre a obra autobiográfica de Antonio Carlos Villaça, no Mestrado; e a poesia de Augusto dos Anjos, no Doutorado).

Ao mesmo tempo que ensinava, gostava de ler e escrever – sobretudo crônicas, que publicava nos jornais de João Pessoa. Tenho cinco livros nesse gênero e devo em breve publicar outro, reunindo produção mais recente.

2. Qual é a relevância da obra de Augusto dos Anjos na administração e como ela se relaciona com o contexto atual?

R. Augusto dos Anjos é um autor que, pela sua originalidade, tem suscitado diversas leituras. A sua influência ainda é flagrante no contexto atual; a impressão que se tem é a de que, quanto mais o tempo passa, mais se descobrem vínculos, influências, pistas hermenêuticas que podem levar a uma maior compreensão dos seus versos. Escolhi-o como objeto da minha tese, “O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos”, defendida em 1992 na UFRJ. Foi um grande desafio devido ao muito que já se escrevera sobre ele, mas resolvi encarar porque sempre me impressionaram em sua obra dois aspectos: a presença da culpa, amplamente disseminada no “Eu”; e a ênfase na corporeidade para a representação da angústia metafísica. Não à toa ele rompe com o Simbolismo e prefere, ao misticismo de um Alphonsus de Guimaraens ou às etéreas imagens de um Cruz e Sousa, se concentrar no destino da matéria. E, por extensão, no expressionismo da Forma, que em última instância é o que define o valor de uma poesia. A psicanálise me ajudou a perceber o lastro melancólico do seu espírito, marcado pelo desconforto com o prazer e pelo anseio por um homem novo, não marcado pela Falta. Mas sobretudo me orientou quanto à percepção dos indícios formais (como as imagens de peso ou carga, a atração pela obscuridade e o negror, a hiperbólica rejeição da sexualidade) que traduzem o sentimento de culpa. Augusto dos Anjos dos Anjos deve ser lido sobretudo como poeta.

3. De que forma o professor Chico Viana interpreta as obras de Augusto dos Anjos em suas aulas?

R. Coerentemente com a minha percepção do poeta, procuro nas aulas destacar-lhe o artesanato e a posição ímpar na nossa literatura. Ele se situa no Pré-Modernismo, que segundo Alfredo Bosi é o verdadeiro momento de ruptura com o Século 19. Seu impulso rumo à modernidade reflete-se no vocabulário prosaico, na incorporação do grotesco e na valorização do “feio” como ingrediente estilístico. Procuro também na interpretação do poeta destacar a crítica que ele faz ao Positivismo e ao materialismo com que se deparou na Escola de Recife, a ponto de transformar conceitos da ciência e da filosofia imperantes na época em imagens carregadas de subjetividade e emoção. A áspera musicalidade dos seus versos alimenta-se em boa parte do vocabulário desses domínios do saber, que ele deforma e transfigura a fim de traduzir suas fantasias e obsessões.

Meu trabalho com Augusto não se limitou à tese. Além de abordar a sua obra na linha de pesquisa “Contributo psicanalítico à leitura do texto literário”, que criei no curso de pós-graduação em Letras da UFPB, produzi novos textos sobre ele e os publiquei no livro “A Sombra e a Quimera; escritos sobre Augusto dos Anjos”, publicado pela Ideia. Matérias sobre o poeta que tenho veiculado no “Ambiente de Leitura de Leitura Carlos Romero” serão objeto de um novo livro, em breve disponível na Amazon. E há cerca de três anos criei um blog (escritossobreaugustodosanjos@wordpress.com) no qual, além de alguns textos que produzi sobre ele, veiculo fotos, documentos e curiosidades sobre a sua biografia. Para manter esse blog, que já computa mais de 2.000 acessos, venho contando com a inestimável colaboração do Dr. Alcir dos Anjos, um dos seus ascendentes.

4. Como você vê a evolução das metodologias de ensino na literatura ao longo dos anos?

R. Grosso modo, há uma oposição entre a valorização da história, com o registro das transformações político-sociais que se refletem no texto, e a ênfase no aspecto formal. É o conteudismo versus o formalismo. Penso que a boa metodologia é a que equilibra esses dois domínios. A literatura pode, sim, ter uma mensagem social, de modo que me parece excessiva a crítica que a professora Aurora Fornoni Bernardini fez ao romance “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior, por nele não se priorizar a estética e a forma. Um juízo crítico como esse atingiria também um autor como Jorge Amado, e quem contesta o vigor narrativo do baiano? Semelhantemente, deter-se apenas no plano formal seria cortar os vínculos que as palavras têm com a vida, o drama das pessoas. É famoso o comentário que Olavo Bilac fez sobre Augusto dos Anjos quando soube da sua morte. Algo como: “Fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa...”. No entanto, Augusto é hoje certamente mais lido do que o parnasiano – um dos expoentes do “culto da forma” (digo isso sem querer negar o seu grande valor). Quando eu estudava Letras a coqueluche era o Estruturalismo, uma corrente que se detinha basicamente nos estratos formais do texto; dele hoje ninguém mais fala.

5. Quais são os principais desafios que a literatura enfrenta no contexto educacional contemporâneo?

R. O principal deles é fazer os alunos lerem. A falta de uma política de leitura é flagrante e lamentável em nosso sistema educacional. As escolas cobram pouco ou quase nada os grandes autores, e uma das razões para isso é não haver um elenco de livros de leitura obrigatória para quem vai fazer o Enem. A leitura dos bons autores leva à maior compreensão da nossa realidade e ao aprimoramento no uso da língua. Sem o foco na leitura e na interpretação, o ensino da língua tende a priorizar os aspectos gramaticais, que são fundamentais para a correção do texto mas não despertam a criatividade. Outro problema diz respeito à escolha dos gêneros textuais. Concordo com que se priorize a dissertação argumentativa, mas sem negligenciar, por exemplo, a prática da narrativa, da carta ou do perfil. Eles tendem a despertar o barthesiano “prazer do texto” e despertar a curiosidade por produções mais elaboradas, que se encontram nos grandes artistas literários.

6. Como você imagina o futuro da literatura nas escolas e universidades, especialmente em relação ao uso de tecnologia?

R. Quando se fala nesse tipo de desafio, penso sobretudo na Inteligência Artificial, que tem deixado em polvorosa boa parte dos escritores ou aspirantes a esse ofício. E não só os escritores; também os professores, que temem o que ela pode fazer no sentido de substituir o trabalho dos alunos no domínio da leitura e da produção textual. É bem mais grave o problema quanto a esse segundo aspecto, pois o alunado geralmente se encontra numa idade em que precisa ler, produzir, escrever, e deixar que um artefato eletrônico faça isso no lugar dele é, por assim dizer, criminoso. Impõe-se ao sistema escolar impedir que isso ocorra – propondo, por exemplo, tarefas redacionais e interpretativas em classe, longe dos artefatos eletrônicos. Quanto aos escritores (professores universitários ou não), o problema é sobretudo de identidade autoral. Muitos têm se servido da IA como fonte de pesquisa ou meio de amplificar ideias, num processo dialógico que pode até ser enriquecedor. Sou otimista quanto a esse uso; por mais engenhosas que sejam as associações produzidas pela inteligência generativa, acho que a última palavra caberá sempre ao homem. Ele discerne, sofre, sonha – coisas à qual a IA é alheia.

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Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela UFRJ.

Publicou os seguintes livros de crônicas: “De mãos atadas” (GGS), “Astronauta sem luar” (Presença), “A rosa fenecida” (Ideia), “A idade do bobo” (Ideia), “O circo da vida” (Amazon), “A razão e o sonho” (Amazon).

Na área ensaística, publicou: “Travessia do mosteiro; considerações sobre a autobiografia em Antonio Carlos Villaça”, “Poesia medieval ontem e hoje (Ideia – Em parceria com Maurice van Woensel). “O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos” (Fundação Casa de José Américo), “A Sombra e a Quimera; ensaios sobre Augusto dos Anjos” (Ideia).






Hélio Costa

FEBTUR - Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo - Paraíba

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